#116 – Ronaldinho Gaúcho
Grêmio, PSG e Barça, a Libertadores no Galo, Paraguai, Netflix e Garrincha
Salve, salve... salve-se quem puder!
O que dizer do Bruxo?!
O jogador mais habilidoso que o futebol já viu, nas palavras do Galvão Bueno? Um craque mágico com a bola nos pés, mas sujeito tímido e introvertido na frente das câmeras? Uma fonte de autenticidade e sinceridade, apesar do irmão escroque e com pinta de bandido? Um cara família, honesto e livre pra fazer o que der na telha, de preferência com os amigos do peito?
Ele foi e é tudo isso e muito mais. Aproveitando a Copa, que já está a todo vapor com o fim das oitavas, essa edição vai te jogar uma bola quicando e te pedir pra fazer umas embaixadinhas.
Nem ouse recusar.
A playlist “Música futbolera para judar fütbol como Ronaldinho Gaucho” é uma salada mista. Começa bem com Sérgio Mendes e Bellini, depois Ricky Martin e Opus, mas Gusttavo Lima e Michel Teló nem deveriam ter sido convocados. Paciência.
Aperte o play e saia driblando:
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Bruxo
Alegria nos pés
Ronaldinho surgiu no Grêmio de Futebol Porto-alegrense no final dos anos 90. Corria o ano de 1999 quando estreou pela Seleção contra a Venezuela na Copa América marcando este gol de placa:
Depois dessa pintura e tantas outras atuações brilhantes pelo tricolor gaúcho, sair do país era questão de tempo. Ele foi brilhar no Paris Saint Germain, onde Raí e Leonardo haviam brilhado antes. Tirou o time da capital francesa da fila, deu uma sova de 3x0 no arquirrival de Marseille acabando com um tabu de 15 anos e ganhou um campeonato.
Ainda faltava conquistar a Europa e o próximo passo a ser dado seria escolher um time de ponta. Não uma equipe qualquer, mas uma que obrigatoriamente usasse os produtos da deusa grega Nike, a mesma fornecedora da Seleção.
Em 2005 nossos destinos se cruzaram em Barcelona. Bem, se cruzaram é licença poética para ilustrar essa edição. Em março deste mesmo ano, cheguei na cidade para passar uns dias na casa de uma menina que conheci no, vejam só, Orkut. A história completa é grande e rica o suficiente para o capítulo de um próximo livro ou edição da newsletter.
Tínhamos combinado de nos encontrar na Plaza Catalunya e enquanto ela não chegava fiquei conversando em portunhol com um taxista ali parado. Ele me contava feliz e orgulhoso que o jogador brasileiro estava arrebentando. Trazia alegrias todas as semanas e levava o time a vitórias mágicas, quase impossíveis. Acabei comprando uma camisa com o 10 estampado atrás que guardo com carinho.
Vários brasileiros já brilharam no Barça como Romário, Ronaldo e Rivaldo, mas um catalão conhecido meu me disse outro dia que o Bruxo foi o jogador que mudou o Barcelona de patamar na Europa. Todos os torcedores o consideram um divisor de águas: AB/DB. Não entendeu? Antes do Bruxo e Depois do Bruxo.
Ganharam tudo e mais um pouco, inclusive a Champions League de 2005-06 numa batalha épica contra o Arsenal. A final foi em Paris, justo onde ele havia brilhado antes e vários de seus amigos estavam presentes no estádio assistindo à conquista.
As baladas e o estilo boêmio atrapalharam um pouco e Ronaldinho acabou saindo e trocando o Barcelona pelo Milan. Lá jogou em outro timaço com Beckham, Ibrahimovic e Kaká. Ganharam a Série A em 2010-11 até que bateu a saudade e ele quis voltar pra casa.
Com tudo encaminhado para a volta ao Grêmio, seu clube do coração que o revelara, o destino acabou sendo o Flamengo. Apenas aquela exibição de gala contra o Santos do eterno menino valeu por toda a temporada de 2011.
A Libertadores de 2013
Perseguido pela imprensa carioca e pelos fanáticos urubus, Ronaldinho virou carniça e não tinha um minuto de sossego. Aquela ideia de viver na praia jogando futevôlei, treinando pouco, jogando muito e ganhando uma baba de dinheiro logo acabou.
Numa jogada de mestre, o então presidente do Galo, Alexandre Kalil, trouxe o Bruxo para o Galo. Desacreditado, tido como “acabado” e sem prestígio, mas com uma Massa enlouquecida e apaixonada que carregou o novo ídolo e o time todo para onde foi preciso.
Não ganhamos o Brasileiro de 2012 porque o Fluminense estava mortal com o vagabundo do Fred marcando gols em quase todos os jogos. Aquele vice campeonato (mais um!) nos levou para a Libertadores do ano seguinte após longo hiato.
Na hora do pênalti do Victor contra o Tijuana nas quartas eu estava em Roma deitado na cama ouvindo pela Itatiaia com um fone no ouvido e minha esposa dormindo ao lado. Era 5 ou 6h da matina por causa do fuso horário. Já me conformava com mais uma eliminação injusta e precoce. Eis que o milagre foi operado e seguimos. Até hoje não sei como segurei o grito e não acordei até o Papa.
Jô e Ronaldinho formaram ‘dupla dinâmica’ na campanha do título do Atlético-MG na CONMEBOL Libertadores de 2013 (Bruno Cantini/Atlético-MG)
Nas semis, o Kalil mandou apagar a luz do Caldeirão do Independência pra esfriar o jogo e dar ao Galo a chance de se recompor voltando para o jogo. Um gol era preciso e acabou acontecendo. Despachamos o Newells Old Boys e fomos pra final.
Conheço bem o meu time e sei que outra final de Libertadores não acontecerá nos próximos 76 anos. No ato, decidi comprar passagens pra ir ver o jogo em BH. Uma semana, bate e volta, jogo na quarta, gandaia pela madrugada e volta no sábado. Meu amigo Butina trabalhava na empresa que fornecia os ingressos para o Mineirão. Antes de fechar os voos, liguei pra ele pedindo para garantir o meu. Ele cumpriu a palavra, pois fui lá na sede pegar o bendito ainda quente saindo da impressora. Custou R$ 400, uma fortuna na época.
Assisti o jogo todo em pé e praticamente sozinho, pois quem estava comigo não aguentou a pressão e desceu para o Bar 27.
Num jogo do Brasileiro no mesmo ano, a mãe do nosso herói estava doente e a torcida alvinegra fez uma homenagem pra ela estendendo uma bandeira com foto e tudo mais. O jogo era contra o Figueirense no Caldeirão do Horto e tive a sorte de estar presente. Enfiamos 6x0 com direito a gol do Ronaldinho de falta, daqueles batendo rasteiro por baixo da barreira e enganando o goleiro.
Em entrevistas ele disse que após tanto carinho com sua mãe ele iria com o time e a torcida até o fim e daria tudo de si.
Leo Silva aos 43’ do 2° tempo matou metade do estádio e da cidade do coração com o segundo gol empatando a disputa. Ressuscitamos todos para ver a prorrogação e depois a disputa dos penais. Quando o paraguaio mandou a cobrança derradeira na trave, a consagração estava garantida.
Lavamos a alma e o Bruxo emocionado disse que jamais esqueceria aquela noite, aquela conquista, aquela Massa.
O passaporte para o Mundial da FIFA no Marrocos estava garantido, mas Marrakesh é outra história.
Prisão
Além de tudo que fez em campo, Ronaldinho protagonizou uma prisão espetacular no Paraguai que alterou o eixo da Terra. Depois desse evento, ocorrido no dia 4 de março de 2020, tudo começou a degringolar.
Basta lembrar que a Covid-19 comia solta e o mega lockdown mundial começou no dia 16 daquele mesmo março de 2020, 12 dias após a detenção do craque por entrar no país latino usando documentos falsos.
Até hoje não se sabe qual foi a necessidade de usar passaportes paraguaios para entrar no país, pois até as esteiras rolantes do aeroporto de Asunción sabiam da nacionalidade do jogador.
Será que pensavam em enganar alguém?!
Ronaldinho Gaúcho- Netflix – Luís Ara (2026)
Campeão por onde passou, até na cadeia
São três episódios muito bem editados mostrando grande parte do que já relatei acima.
Para surpresa de todos, o diretor da série inclusive, Ronaldinho é um sujeito muito tímido na frente das câmeras. O contrário de tudo que demonstrou em campo.
Extremamente sincero e espontâneo, ele é aquilo mesmo mostrado na série. Um sujeito simples que vive com a família, pois além do irmão e empresário escroque Assis, a irmã deles vive na mesma propriedade gaúcha.
R10 gosta de farra até hoje, de estar com os amigos e relembrar os jogos épicos que participou. O mais marcante talvez seja aquele contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu quando o Bruxo acabou com os madridistas. Depois do terceiro gol a torcida do Real começou a aplaudir a aula magna do ídolo do Barcelona.
Estrela Solitária – Ruy Castro (1995)
Garrincha foi drible e cachaça
Minha indicação era pra ser o livro “México 70” do Andrew Downie que li antes da Copa começar, mas peguei na sequência essa obra prima comprada há tempos e largada numa estante acumulando poeira.
A Vida do Mané Garrincha se parece bastante com a do Ronaldinho. Em que pese a origem mais humilde do Mané, seu DNA de índio, ter feito muito mais pela Seleção, pois fez dupla com Pelé e ganhou duas Copas, e gostar mais de cana do que o Bruxo, que me parece beber muito pouco, ambos tiveram as carreiras prejudicadas pelo comportamento extra campo.
Ainda estou na página 120 de quase 500, mas consigo perceber as semelhanças, e as diferenças, entre os dois.
Ambos tímidos, meio desligados pra esse lance de fama e fortuna, mortais com a redonda nos pés, driblaram todos que ousaram tentar roubar-lhes a bola, eram imparáveis quando aparecia um rabo de saia, foram ídolos nos clubes onde jogaram e voltaram às origens quando a idade pesou e a aposentadoria chegou.
A grande diferença é que Mané brilhou em duas Copas, 58 e 62, nesta sendo a principal estrela da Seleção, e tirou o Botafogo de uma longa fila empilhando troféus enquanto lá esteve. Seu fim de carreira também foi muito mais amargo e doloroso. Não jogou no exterior porque não quis, pois amava o Brasil e a Vida simples e caseira em Pau Grande.
Teve não sei quantas esposas, amantes, namoradas, filhos e filhas, e sua relação com Elza Soares balançou a sociedade brasileira.
Ronaldinho encerrou a carreira no México após dois anos vitoriosos no meu Galo, virou celebridade internacional, não se casou porque não quis, teve um único filho e aparenta estar resolvido financeiramente, apesar do irmão calhorda.
Mas talvez a principal diferença entre os dois seja o tratamento e o reconhecimento dado pelos torcedores e críticos. Mané fez muito mais e recebeu muito menos.
Rolê aleatório
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