Vida de Mulher
Tempo, Silêncio e Autonomia
Não é fácil ser Mulher hoje em dia. Na verdade, nunca foi.
Nem o dia internacional, nem o dia das mães salvam. As duas únicas datas quando elas são celebradas.
Em algum lugar do mundo, neste exato momento, uma mulher está sendo atacada por um homem, agredida verbalmente, assediada moral e sexualmente, estuprada, assassinada e deixada no chão para os vermes se deliciarem.
Os vermes somos nós, os homens. Na maioria dos casos o agressor é o atual marido ou namorado, mas também pode ser um ex inconformado por ter sido deixado, trocado ou traído. Se acham no direito de ter posse sobre uma pessoa. Pensam que um relacionamento é via de mão única, onde eles estão no comando decidindo tudo e elas estão ali apenas para servi-los.
Um bando de fracassados, inúteis, covardes e escrotos. Geralmente brancos, mas nem sempre. Acontece em todas as classes sociais, cores, credos, raças, culturas e níveis de desenvolvimento econômico. Mas existem exceções que confirmam a regra, claro.
Mariam Nabatanzi, fotografada em 2017, com 12 dos seus 38 filhos (Getty Images)
Elas, as Mulheres, são forças da Natureza. Resistentes, fiéis, provedoras, cuidadoras e guardiãs da Humanidade. Sem elas nada disso aqui existiria. Nenhum homem, nenhuma família, nenhum bairro, cidade, estado, nação, empresa e muito menos nenhum Planeta.
Elas não têm um segundo de paz em sua gloriosa existência. Talvez quando crianças, mas muitas nessa parca idade já são assediadas e abusadas desde os grotões do mundo até os quartos das mansões. Ou seria o contrário?
Vem a puberdade e com ela a insegurança natural, a vergonha de ficar vermelha, a vontade de atrair e ser atraída, de gostar e ser gostada. O risco da gravidez e desonra familiar andam de mãos dadas até hoje, em pleno 2026 com IA, mudanças climáticas, fascismo, genocídio e o escambau a quatro.
A camisinha, esse eterno tabu hoje tão disseminado, serve para proteger do feto indesejado e das doenças venéreas. Aumenta a proteção e o desconforto e ao mesmo tempo diminui a intimidade e o prazer. E dá-lhe hormônios, tesão, inconsequência e instintos nessa equação.
A gravidez coroa tudo isso. É a Vida em sua forma mais pura e animal. Elas experimentam mudanças físicas, químicas, biológicas, psicológicas e emocionais enquanto nós, os vermes, estamos preocupados apenas com nosso prazer momentâneo e se o corpo delas um dia voltará “ao normal”. Mais minúsculo, impossível.
A barriga cresce junto com o medo. A insegurança chegou em Júpiter faz anos. Medo de ser uma boa mãe. Medo de se tornar uma provedora. Medo de dar conta do recado. Medo de algo errado acontecer no parto ou antes dele. Uma malformação, um defeito congênito, um acidente no nascimento, uma doença repentina no bebê. Tudo isso enquanto se recupera do parto, seja normal ou cesárea, e torce, reza e espera para que um dia seu corpo volte a ser como era antes. Nunca será. Ainda bem que não.
Algumas ficam tão fora de si, tão emocionalmente comprometidas e dedicadas, tão exaustas devido à falta de uma noite de sono reparador, tão sem energia pra qualquer coisa, que se sentem drogadas como se tomassem um ácido. Os primeiros três meses são punk!
Depois vem o segundo, o terceiro e talvez até o quinto rebento. Doidas varridas? Sim, mas donas de um Amor infinito e inesgotável. De uma vontade de prover sem fim. De uma capacidade de cuidar e de amar únicas e incomparáveis.
E nós, os vermes, o que fazemos diante desse espetáculo? Uns poucos embarcam na onda de cuidados e Amor, ajudam, participam e vivem aquele período mágico com elas. A maioria espera inerte. Espera as coisas voltarem “ao normal”. Espera os bebês crescerem logo pra dar menos trabalho. Espera ter UMA noite sem interrupções na semana, enquanto elas dormem TODAS as noites desconfortáveis, picadas pela metade, acordando de duas em duas horas pra amamentar ou dar antibióticos.
Nós, os vermes, queremos logo nossa mulher de volta sem perceber o óbvio: o reinado acabou. O bebê agora é outro, esse sim necessitando de cuidados básicos. Agora se vira nos trinta, moleque!
Enquanto isso, elas estão preocupadas 24/7 com a saúde das crias, o que comem, se estão limpos, dormindo bem, ganhando peso, crescendo de acordo com a média, as vacinas em dia, a escolha e a matrícula no jardim de infância e escolas, o material escolar, os coleguinhas que mordem, arranham e puxam cabelo, se os filhos/filhas sabem se expressar e se defender em caso de assédio, se estão começando a andar e a falar na hora certa, se caem e se machucam, se colocam pedrinhas na boca e correm o risco de morrer engasgados, se estão tomando água suficiente, se a papinha tá muito quente e pode queimar, se o irmão enfiou o dedo no olho do mais novo, se estão agasalhados, se aquela febre de 40° vai passar logo, se o pediatra é bom mesmo, e a maior das preocupações: com quem eles/elas vão se casar?!
Tudo isso acontece enquanto elas já voltaram ao trabalho. Seja braçal como faxineira, cuidadora, caixa de supermercado, vendedora, empregada doméstica ou gerente de banco, publicitária, enfermeira, pediatra, psicóloga, advogada, executiva de empresa, professora e motorista de Uber. A licença maternidade é um breve sopro perto de tantas mudanças. E elas dão conta de tudo!
Quando as crianças crescem e elas envelhecem, nós, os vermes que também ficam velhos, procuramos carne nova e o divórcio é inevitável. Ao invés de valorizar aquele manancial de Amor, vitalidade e dedicação, viramos a cara, picamos a mula e trocamos um fruto maduro por uma promessa verde e dura. Somos uns retardados, mas nem todos.
Pra coroar tudo isso, vem o tal do climatério. Palavra abominável que aprendi faz pouco tempo e me lembra de cemitério. E é isso mesmo: o início da morte da fertilidade feminina. O começo da menopausa com mais alterações hormonais, redução de estradiol e uma mudança comportamental enorme levando invariavelmente a mais separações sem motivo aparente.
Algumas querem a liberdade que perderam lá atrás numa encruzilhada da Vida tão distante que se esqueceram onde foi. Outras querem viver o que não viveram quando eram jovens e cheias de vitalidade. As que têm grana e são bem sucedidas não querem mais ficar bancando um barrigudo folgado e grosso depois que os filhos saíram de casa e ficaram independentes. E tem aquelas que se cansaram de tudo isso e querem curtir o restante de seus anos com quem realmente importa. Seja sozinha, com amigas ou mesmo um outro companheiro (ou companheira, por que não?!).
No fundo, as mulheres querem deixar de ser mães de todo mundo e cuidar de si mesmas antes que entrem em colapso. Querem ser mães delas mesmas e só. Basta, chega!
A intensificação da maternidade
Este artigo saiu em Portugal na semana anterior ao Dia das Mães. Fala sobre o culto da perfeição materna e do mito da heroína incansável.
A ciência e a sociologia já sabem que este culto e mito são as principais fontes do esgotamento e um dos maiores responsáveis pelo stress na saúde mental feminina.
No Brasil, o artigo mais vendido como presente para o Dia das Mães deste ano foi a caneta emagrecedora da Mounjaro. Além de perfeitas, indestrutíveis e super mulheres, queremos elas magrinhas como modelos da Victoria Secret.
O artigo termina dizendo que “o melhor presente que uma mãe poderia receber em 2026 é o direito de ser uma pessoa completa, com defeitos, com ambições próprias e com o direito sagrado ao descanso sem culpa.”
Hamnet
Pra fechar, deixo com vocês algumas frases deste artigo brilhante da Milla Gama publicado no 8 de março de 2026:
Enquanto isso, alguém precisa ficar. Alguém precisa cuidar da casa. Alguém precisa cuidar das crianças. Alguém precisa continuar vivendo a vida cotidiana tão desprezada no mundo. Na maioria das vezes, esse alguém era, e ainda é, uma mulher.
Quantas mulheres poderiam ter sido artistas extraordinárias se tivessem tido as mesmas condições materiais para criar? Quantas histórias não foram escritas porque alguém precisava preparar o jantar, cuidar de uma criança doente, resolver a sobrevivência cotidiana?
Desconfio que as Mulheres têm míseros cinco minutos de sossego durante toda a Vida. Acontece na virada dos 33 para os 34 anos entre 3 e 4 da matina, mas como estão dormindo acabam nem percebendo.
O que elas precisam é de descanso, presença e cuidado. Quanto antes nós, os vermes, percebermos isso, melhor será o mundo.
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